Frank Sinatra Versus Orlando Silva
Vamos estabelecer alguns pontos comuns entre Frank Sinatra e Orlando Silva,
nosso cantor maior. Uma pergunta: quem foi o melhor, Frank Sinatra ou Orlando
Silva?
Nascidos em lares humildes no ano de 1915, Orlando Garcia da Silva no
subúrbio carioca de Engenho de Dentro, a 3 de outubro, Francis Albert Sinatra
na pequena cidade portuária de Hoboken, vizinha de Nova Iorque, a 12 de
dezembro. Orlando, quarto filho do casal, José Celestino e Dª Balbina, enquanto
Frank, filho único do casal Antonio Martino e Natália (Dolly). Sua mães exerceram
forte influência sobre eles. Dª Balbina e "Dolly" eram severíssimas e marcaram
suas personalidades. Desde a infância, Orlando e Frank demonstravam qualidades
vocais inatas. Adoravam cantar e o faziam em todo lugar onde houvesse
oportunidade, sendo incentivados por seus familiares. Ambos franzinos, de média
estatura e temperamento introvertido. Orlando, além de muito tímido era manco
de uma perna (na adolescência perdeu três dedos do pé esquerdo em um
desastre de bonde). Frank, filho de imigrantes italianos, nasceu de um parto
difícil, sofrendo ferimentos no lóbulo da orelha esquerda e profundas cicatrizes
no pescoço, causadas pelo fórceps, que o marcaram para sempre.
Até alcançarem sucesso e fama a luta foi árdua. Sinatra começou cantando
com um grupo de amigos, os "Hoboken Four", depois foi cantor-garçom num
restaurante de beira de estrada, o "Rustic Cabin".
Orlando, começou a cantar em festas de aniversário e em casas de parentes
e amigos. No início foi apadrinhado pelo compositor Bororó que o levou às
emissoras de rádio. Posteriormente, Francisco Alves, o "Rei Da Voz" o contratou
para cantar em seu programa de rádio. Com o tempo ambos foram se
aprimorando e se impondo. Mas, o que faria deles idolos incontestes do publico?
Sem dúvida, a voz privilegiada, a dicção perfeita e as interpretações
marcantes. Frank, desenvolveu técnica de respiração que lhe permitia estender
as frases das canções, criando, estilo personalíssimo. Orlando, também tinha
fraseado belíssimo e não cantava com sotaque carioca. Se ouvirmos suas
canções, veremos que seus "erres", "esses" e "elles" soavam como de um
gaucho. Foi ele que introduziu o soluço na interpretação de canções
românticas, tornando-se sua característica. Uma das poucas diferenças entre
esses dois ídolos é que, Sinatra, beneficiou-se do aprendizado e experiência
que teve, ao cantar nas big bands de Harry James e Tommy Dorsey. Orlando
por sua vez, aprendeu praticamente tudo sozinho, era autodidata, um talento
espontâneo. Teve a felicidade de encontrar em seu caminho o maestro e
arranjador Radamés Gnattali que o orientou na carreira e nas gravações.
Orlando sempre reconheceu o importante papel exercicido pelo maestro no
desenvolvimento da carreira. Sinatra, depois que deixou a banda de Tommy
Dorsey, seguiu carreira solo, orientado pelo maestro Axel Stodahl, que o
acompanhou quando deixou a orquestra. Outro ponto comum e marcante de
suas carreiras; magnetizavam multidõess e paravam o trânsito onde se
apresentavam. As fãs ficavam enlouquecidas ao ouví-los. Não saiam às ruas
sem proteção policial. Não é atoa que Orlando Silva, no auge do sucesso,
foi cognominado de "O Cantor Das Multidões", enquanto que Sinatra de
"A Voz". Vozes lindíssimas de barítono, dois interpretes de tirar o fôlego.
Coincidentemente, tiveram suas carreiras abaladas e em declínio por certo
período. Entre 1949 e 1952, Frank teve tumultuado relacionamento amoroso
com a atriz Ava Gardner. Um desequilíbrio emocial tremendo. Perdeu,
por certo período a voz e entregou-se ao consumo exagerado de bebidas
alcóolicas. Conseguiu superar a crise e voltou a cantar recuperando-se
plenamente. Todos diziam na época que Sinatra acabara para sempre. Ledo
engano. Com Orlando, as coisas foram mais sérias. Além do consumo de
bebidas alcóolicas, viciou-se com morfina, entorpecente altamento tóxico e
que cria forte dependência física.
Ele chegou ao fundo do poço em 1943. Foi desligado da gravadora RCA
Victor e não era mais chamado para cantar no rádio ou em shows. Aos poucos
conseguiu recuperar-se, com a ajuda da mulher - Maria de Lourdes. Alguns
"Orlandófilos", afirmam, categoricamente, que "nesse período de vício
Orlando perdeu, definitivamente, a voz.
Nos anos 50,60 e 70 voltou a gravar. A voz agora apresentava timbre mais
grave, mais amadurecido, conservando porém, a técnica interpretativa
inigualável que sempre possuiu.
É só ouví-lo em gravações desse período. Muita coisa foi escrita a respeito,
mas nada foi provado. Orlando jamais perdeu a voz.
É uma balela! Morreu em 1978, aos 63 anos, esquecido pelo público. Uma
pena... Nossa cultura não respeita e não preserva seus artistas. Bem contrário
de Sinatra que, aos 80 anos, recebeu homenagens e o respeito de seus
admiradores. É claro que Sinatra é um cantor de reconhecimento mundial.
Nasceu no país líder da economia, com recursos econômicos ilimitados. Tudo
o que acontece nos Estados Unidos tem repercussão. No que se refere à
atividade artística, não poderia ser diferente. Orlando Silva, dentro de nossas
limitações sócio-econômicas e culturais, foi cantor acima da média e
artisticamente no mesmo nível de Frank Sinatra.
Fico a imaginar, se aquele casal de imigrantes italianos viesse viver no
Brasil e não na América do Norte, será que Sinatra se tornaria "O Cantor do
Século XX"? Afinal, o Brasil é um país subdesenvolvido e sem tradição cultural
sólida. O máximo que Sinatra conseguiria, certamente, era terminar a
carreira cantando em uma churrascaria. Quanto a
Orlando Silva, até agora
ninguém o suplantou. Continua sendo
o melhor. Voz belíssima, um cantor
soberbo. Para muitos Frank Sinatra é o
Orlando Silva americano e Orlando
Silva o Frank Sinatra brasileiro.

Frank Sinatra "The Voice" " Orlando Silva "O Cantor das Multidões"