O Som do Harlem (II)

   Durante os anos 20,30 e 40, além dos grandes salões de baile como o Savoy
Renaissance, Lido e Golden Gate, famosos teatros-cabarés como o Lincoln,
Harlem Ópera House, Alhambra, Lafayette e Apollo, havia também clubes
noturnos de alto padrão que exibiam diariamente em seus palcos, shows
artísticos e consagradas "black bands" para platéias exclusivamente brancas.
A burguesia novaiorquina comparecia a essas casas de espetáculo para jantar
e assistir revistas musicais com dançarinos, coristas, cantores e ouvir a música
tocada pelas melhores bandas da época.
   Quatro Grandes - Entre dezenas de "nightclubs" instalados no bairro, quatro
se destacavam pela qualidade apresentada sem seus shows.
   Conhecidos como "Quatro Grandes" (Big Four), eram eles, O Connie´s Inn,
Smalls Paradise, Barron Wilkins e, o mais famoso entre todos, o Cotton Club.
   Connie´s Inn
- Durante sua existência foi o grande rival do Cotton
Club, funcionando entre 1923 e 1933. Com endereço na Sétima Avenida e
Rua 131, entre suas atrações destaque para o pianista Fats Waller e o
compositor Andy Razaf e seus "Hot Chocolates", figurando o então jovem
trompetista de New Orleans, Louis (Satchmo) Armstrong.
   Barron Wilkins -
Foi o primeiro grande clube noturno do Harlem, aberto
em 1915. A cantora Mamie Smith e o pianista Duke Ellington e sua orquestra
por várias temporadas, se apresentaram na casa. Após dez anos de funcionamento,
cerrou suas portas no tradicional endereço da Sétima Avenida com Rua 134.
Smalls Paradise -
O mais durável de todos, funcionando a partir de 1925 ,
ininterruptamente, até 1986. Seu proprietário, Ed Smalls, fazia questão de
apresentar refinados shows de palco e as melhores black bands do momento.
Os freqüentadores podiam apreciar a Fletcher Henderson Band, Jimmie Lunceford
e seu Harlem Express, assim como o pianista Count Basie à frente de seus
músicos. Localizado próximo dos concorrentes (Connie´s Inn e Barron Wilkins)
na Sétima Avenida com Rua 135, o "Smalls" ficou em evidência por mais de
sessenta anos, um feito impressionante.
   Cotton Club - O lendário Clube da Avenida Lenox com Rua 142, foi aberto em
1923 pelo "gangster" Owney Madden que havia fechado o antigo Jack Johnson´s
De Luxe Club, reabrindo como Cotton Club, agora uma casa de espetáculos,
apresentando luxuosos shows de palco com lindas coristas, as cantoras Ethel
Waters e Bessie Smith, e dançarinos de renome como Bill "Bojangles" Robinson
e os Nicholas Brothers. Em 1927, a casa contratou o pianista Duke Ellington e
sua banda. Uma oportunidade de ouro que Duke aproveitou para projetar-se no
cenário artístico do país. A essa altura sua orquestra já era sólida e experiente
e com som próprio, partindo decididamente para a fama. Ao transformar-se,
rapidamente na grande atração, permanece aí até 1931, quando recebe
excelente proposta para fazer uma "tournée" na Europa, sendo substituído pela
orquestra de Cab Calloway (1932). Foram quatro anos de intensa atividade musical
como orquestra permanente do Cotton com o aparecimento de solistas que
entraram para a história do jazz: o clarinetista Barney Biggard, Harry Carney,
o primeiro grande solista de sax-barítono, Johnny Hodges e seu famoso sax-alto,
Juan Tizol, compositor do tema "Caravan", trombone de válvulas, Freddie Guy,
guitarrista e Freddie Jenkins e seu trompete. O Cotton Club permaneceu como
ponto central da noite no Harlem até 1936, quando se mudou para o sul da ilha
deManhattan (Downtown), sem o mesmo brilho e sucesso dos primeiros tempos,
encerrando suas atividades em seguida.
   A Era de Ouro - Pelo espaço de aproximadamente 20 anos o Harlem "espalhou"
seu maravilhoso som por todo o país (suas noitadas eram transmitidas pelo rádio,
em rede nacional), propagando-se pelo mundo através da venda de milhões de
discos. Um período fecundo para a música negra norte-americana, onde
expoentes do jazz tiveram a chance de mostrar talento e criatividade.
Um Depoimento - A respeito do negro norte-americano, transcrevo aqui trecho
do livro de Nelson Motta "Nova Iorque É Aqui - Manhattan de Cabo a Rabo" -
Editora Objetiva: 1996-216 páginas.
   "Ah, meu Deus, o que seria dos Estados Unidos sem os negros americanos?
Onde a exuberância atlética, o colorido, a vocação para divertir, para a alegria
e tantas outras graças que eles trouxeram para o novo mundo? O que seria da
América sem eles, que caretice seria, meu Deus...".
   Faço minhas as belas palavras do autor.
   N.B - Aos interessados, existe nas locadoras o DVD da película "The Cotton
Cub" dirigida por Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão partes I, II e III).
protagonizada pelos atores Richard Gere, Gregory Hines, Nicholas Cage
(sobrinho do diretor) e Bob Hoskins. Produção de 1984 e duração de 122 minutos.
Cenografia impecável, reproduz fielmente o ambiente da época, fazendo um
retrato da música negra, particularmente do jazz e dos "gangsters" que
freqüentavam o Harlem.

   
                                               Cotton Club - 1936