O Som do Harlem (I)
   No início do século XX, o Harlem era um pacato bairro de classe média branca,
localizado ao norte de Manhattan (Uptown). A região só se tornou um bairro negro a
partir de 1904, quando a linha I.R.T do metrô foi inaugurada. A chegada dos trens
subterrâneos trouxe consigo a especulação imobiliária, com a construção de
inúmeros edifícios e "boulevards" que deram a configuração arquitetônica atual.
Entretanto, essa desenfreada febre construtiva gerou centenas de imóveis vazios.
Como conseqüência, a grande oferta de moradias fez os alugueis baixarem,
obrigando seus proprietários a aceitar inquilinos negros atraídos pelos preços.
Assim que foi aberto o flanco, a população negra "explodiu", vindo da África, do
Caribe e, principalmente, do sul do país. Em 1910, o bairro ja abrigava mais de
duzentos mil negros.
   Centro de Diversões - O apogeu do Harlem se deu dos anos 20 até os 40, os assim
chamados, anos dourados do jazz, do swing e das big bands. Em 1915, inicia-se
uma importante transformação que o tornaria o centro de diversões de New York
City, com a instalação de luxuosas casas de espetáculos e entretenimento. Artistas
e músicos negros passam a se apresentar aí, oriundos dos mais diversos quadrantes
do país. Uma época rica e muito criativa da música popular norte-americana. Logo
o bairro entra na moda, com a sociedade branca novaiorquina lotando seus teatros,
clubes noturnos e cabarés para ver e aplaudir artistas como Duke Ellington, Cab
Calloway, Count Basie, Chick Webb, Louis Armstrong, Fats Waller, Bill "Bojangles"
Robinson, Bessie Smith e muitos outros.
   Savoy Ballroom -
Dezenas de salões de dança foram abertos por todo o Harlem, e,
o mais famoso de todos foi, sem dúvida, O Savoy, também conhecido como
"The Track" (A Pista), situado na Lennox Avenue e cujo slogan era "The House Of
Happy Feet" (A Casa dos pés felizes), um salão enorme, com capacidade para
4.000 dançarinos, freqüentado exclusivamente por negros. Aberto a 12 de março de
1926, funcionou até meados dos anos 50, com bailes animados por bandas de
primeira qualidade, lideradas por Lucky Millinder, Earl Hines, Erskine Hawkins,
Dizzy Gillespie, Andy Kirk, Harlan Leonard, Chick Webb, Jimmie Lunceford e outros
mais. O famoso baile das quarta-feira - o "Wednesday Lindy Hop", tinha uma
freqüência de entusiásticos dançarinos que disputavam avidamente os ingressos.
Iniciando às 9 da noite, a festa ia até às 3 da madrugada. Durante os bailes, a
movimentação era tão frenética que, de dois em dois anos, o piso do salão
precisava ser trocado, tal o desgaste.
Batalhas de Big Bands - Outra grande atração da casa, as "batalhas" travadas entre
famosas big bands colocadas, uma ao lado da outra, em palcos separados e
tocando alternadamente. A disputa que marcou época colocou em confronto a
banda branca do clarinetista Benny Goodman - O Rei do Swing e do baterista
Chick Webb, a 11 de maio de 1937. Reunindo uma multidão calculada em 20.000
pessoas (4.000 dentro do salão e as demais espalhadas ao longo da Lennox
Avenue). Naquela memorável noite o Savoy entrou em delírio, tendo como
vencedor inconteste, Chick Webb que saiu coberto de glória. Daí em diante
passou a ser conhecido como "O Rei do Savoy".
Teatro Apollo - O Teatro Apollo da Rua 125 nº 235, é o mais famoso na
história do Harlem. Na era do jazz (anos 20,30 e 40), o único teatro-cabaré que
permitia entrada de negros na platéia. Aberto até hoje e funcionando
normalmente, seus célebres concursos de calouros (Amateur Nights), todas
as quarta-feiras, continuam a atrair legiões de jovens à procura de uma lugar
ao sol no cenário artístico norte-americano. O Apollo foi o veículo por onde
passaram talentos como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Dinah Washington.
Essas três destacadas cantoras, ao vencerem o concurso, receberam um
formidável impulso no início de suas carreiras. Nos anos 80 o teatro passou
por uma completa reforma, reabrindo para o público, apresentando orquestras
e cantores, como tem feito desde sua abertura em 1913.

                                 Savoy Ballroom - Harlem - 1942