Nat "King" Cole

   Cole foi o primeiro vocalista negro a ter um programa na televisão
norte-americana. Nessa época (1956), o movimento pelos direitos civis não
estava suficientemente mobilizado para influenciar a opinião pública do país
na luta contra a segregação. Sua presença no vídeo comandando um show
artístico representava importante passo no combate ao odioso preconceito
racial. No início dos anos cinquenta os negros ainda eram impedidos de
freqüentar escolas, restaurantes, teatros e hoteis utilizados por brancos,
principalmente no sul do país. Por dois anos Cole liderou um programa semanal
de grande audiência na rede NBC, transmitido de Los Angeles para todo o país,
tendo de investir seus próprios recursos econômicos, por absoluta falta de
patrocinadores. Inúmeros artístas negros e brancos, amigos de Nat,
contribuíram financeiramente, entre eles, Sammy Davis Jr., Stan Kenton, Peggy
Lee, Ella Fitzgerald e Johnny Mercer, além de não cobrarem por suas
participações.
                        
                                   Nat "King" Cole
   A exemplo de outros vocalistas negros, Nathaniel Adams Cole começou
cantando no coro da igreja batista onde seu pai era pastor, em Montgomery no
Alabama, nascendo aí a 17 março de 1916. Aos quatro anos de idade muda-se
com a família para Chicago - IIIinois; seu pai fora transferido para uma paróquia
da cidade. A partir dos cinco anos orientado por sua mãe que era pianista,
aprende a tocar piano e órgão. Aos doze inicia estudos formais de música
clássica e se envolve com o jazz estimulado por seu irmão mais velho, Eddie.
   No início dos anos trinta, ouvir jazz em Chicago não era tarefa difícil. Lá estava
o pai dos pianistas modernos Earl "Fatha" Hines que exerceria grande
influência em sua formação musical. No limiar de 1936, depois de participar do
trio formado por seus irmãos e de trabalhar, como pianista em clubes noturnos
da cidade, é contratado pela revista musical "Suffle Along", percorrendo todo o
país. Durante a "tournée" conhece uma das dançarinas da revista, Nadine Robinson,
apaixonando-se por ela e casando-se em seguida. Anos mais tarde Cole casar-se-ia,
pela segunda fez, com a vocalista da Big Band de Duke Ellington, Maria Ellington que
não era parente de Duke. A revista chega a Los Angeles, um ano depois, em estado
pré-falimentar. Desempregado, Cole decide fixar-se na cidade onde ganha a vida
tocando seu piano em restaurantes e clubes noturnos.
   As coisas começam a mudar ao conhecer os músicos Oscar Moore e Wesley
Prince, convencendo-os a formarem um trio de jazz inovador com piano, guitarra e
contra-baixo, iniciando as apresentações sob contrato no clube "Swanee Inn" de
Hollywood, tocando um repertório de jazz e blues. Em poucos meses recebem
propostas para apresentações em locais cada vez mais sofisticados. No ano
seguinte (1939) gravam com a denominação de "King Cole Swingsters",
acompanhando a cantora Bonnie Lake. Mais um ano de atividade e o trio é batizado,
definitivamente, como "King Cole Trio", assinando contrato com o selo DECCA
(hoje MCA), onde grava sua primeira faixa "Sweet Lorraine" com vocal de Cole.
Em 1942, o prestígio do trio se consolida definitivamente e muda de gravadora,
passando para a Capitol, selo no qual Cole permanece pelo resto de sua carreira.
   Nos sete anos seguintes, as atividades de Cole se concentraram exclusivamente
no trio, até que, por volta de 1946, faz sua primeira experiência cantando
acompanhado por uma secção de cordas, ao gravar a composição de Mel Tormé
"Christmas Song" no lado A e "For Sentimental Reasons" no lado B. Esse disco
de 78 rotações alcançou a surpreendente marca de um milhão de cópias
vendidas. A partir daí, a carreira como cantor solista começa a se delinear,
abandonando a faceta de pianista de jazz, assumindo a de cantor. Cole emerge como
grande intérprete - uma voz suave, quente e melodiosa, apoiado por arranjadores
e maestros como Nelson Riddle, Gordon Jenkins, Ralph Carmichael, Pete Rúgolo
e Billy May. A confirmação absoluta de seu talento veio em 1950, quando
acompanhado pela orquestra de Les Baxter e arranjos de Nelson Riddle, grava
"Mona Lisa" (oito semanas consecutivas como a mais vendida), somando-se aos
temas; "Too Young", "Because" You´re Mine", "Unforgettable", "Pretend", "When
I Fall In Love" e "Stardust". Seguem-se retumbantes sucessos; "Walkin´My Baby,
Back Home", "Ballerina", "Hajji Baba", "Nature Boy", "Blue Gardenia" e "Again".
   Cole participou de várias películas produzidas em Hollywood, entre as quais
destacamos, "Saint Louis Blues" de 1958 e "Cat Ballou" de 1965, ao lado de
Lee Marvin e Jane Fonda.
   Em 1959. Cole veio ao Brasil, apresentando-se na Televisão Record Canal 7
de São Paulo, recebendo verdadeira consagração de seus admiradores. Durante
sua permanência em São Paulo, esteve acompanhado pelo homem de rádio,
televisão e disco Roberto Corte Real que serviu de intérprete e cicerone em seus
deslocamentos pela cidade. Segundo depoimento que o saudoso amigo Roberto
me fez, Cole ficou tão agradecido pela atenção recebida que, jamais esqueceu de
enviar-lhe um afetuoso cartão de boas festas por ocasião do Natal.
   Em 1991, a filha Natalie gravou o tema "Unforgettable", cantando em dueto, uma
mixagem tecnicamente perfeita a partir da gravação original feita por Nat no início
dos anos 50.
   Nat "King" Cole, a grande voz surgida após a segunda guerra mundial, nos legou
respeitável acervo de belas gravações realizadas para o selo Capitol.
   Destacado pianista de jazz e um vocalista inesquecível, Cole faleceu a 15 de
fevereiro de 1965, aos 48 anos de idade, de câncer pulmonar.

         
                      Cornel Borchers - Nat "King Cole" - Errol Flynn